O Verdicchio dei Castelli di Jesi é um vinho branco italiano com Denominação de Origem Controlada (DOC), produzido nas províncias de Ancona e Macerata, na região das Marcas. Elaborado com a uva autóctone Verdicchio na proporção mínima de 85%, é considerado um dos mais importantes vinhos brancos italianos e reconhecido internacionalmente pela inconfundível garrafa em forma de ânfora. O nome «Castelli di Jesi» remete aos municípios medievais que historicamente gravitavam na órbita política e econômica de Jesi — cidade que em 1194 viu nascer o imperador Frederico II de Suábia.
História A presença da uva Verdicchio nas colinas da Vale Esina é documentada desde tempos remotos. Uma tradição lendária situa no ano 410 d.C. o primeiro registro histórico do vinho: o rei visigodo Alarico I, em marcha para saquear Roma, teria reabastecido suas tropas com barris do vinho dos Castelli di Jesi, afirmando que nada lhes conferia tanta «sanitade et bellico vigor». Embora de caráter lendário, o episódio atesta a arraigada tradição vitícola local. A primeira menção escrita conhecida do nome «Verdicchio» para designar o vitigno encontra-se no Libro di agricoltura utilissimo (1557), tradução italiana do tratado agrícola do espanhol Gabriel Alonso de Herrera elaborada pelo fabrianese Mambrino Roseo da Fabriano. Uma attestação pouco posterior aparece na obra De naturali vinorum historia (1596) de Andrea Bacci (Sant'Elpidio a Mare, 1524 – Roma, 1600), no capítulo sobre os vinhos picenos. O próprio Herrera já elogiava a variedade: «Il vino di questo vitame è migliore di niuno altro bianco. Si conserva per lungo tempo, è molto chiaro, odorifero e soave.» O poeta toscano Pietro Aretino (1492–1556), notoriamente crítico, também se deteve em elogios às virtudes do Verdicchio. O primeiro documento notarial que cita o nome em Matelica data de 12 de janeiro de 1579. Em 1871, a Comissão Ampelográfica Provincial de Ancona, presidida pelo enólogo De Blasis, publicou os Primi studi sulle viti della Provincia di Ancona, catalogando o Verdicchio como variedade predominante na área de Jesi. Em 1881, o estudioso Di Rovasenda declarava-o a mais valorizada uva de baga branca das Marcas. A segunda metade do século XIX trouxe severas ameaças: o oídio chegou em 1851, a peronospora em 1879 e a filoxera da videira em 1890, forçando a reconstrução dos vinhedos. O Verdicchio sobreviveu por ser o vinho mais comercializado da região. Ainda nesse período, o produtor Ubaldo Rosi realizou experimentos pioneiros de espumantização «à maneira do verdadeiro champagne», exportando vinhos espumantes de Verdicchio para além dos Alpes já em meados do século XIX. A notoriedade comercial moderna surgiu no início dos anos 1950, quando o industrial farmacêutico Francesco Angelini adquiriu a cantina Fazi Battaglia em Cupramontana. Em 1953, lançou um concurso para a criação de uma garrafa característica: venceu o projeto do arquiteto Antonio Maiocchi, que concebeu a forma de ânfora grega, em referência à civilização dórica que fundou Ancona. A embalagem tornou-se símbolo do vinho e do território. O reconhecimento da DOC ocorreu pelo Decreto Presidencial de 11 de agosto de 1968, publicado na Gazzetta Ufficiale n.o 245, de 26 de setembro de 1968. O disciplinare foi atualizado sucessivamente em 1978, 1981, 1990, 1995, 1998, 2003 e 2010–2011. Em 2010, foi criada a DOCG Castelli di Jesi Verdicchio Riserva, pelo Decreto Ministerial de 18 de fevereiro de 2010 (G.U. n.o 50, de 2 de março de 2010). A partir de 1.o de setembro de 2020, o contrassegno di Stato (contrarrótulo de Estado) passou a substituir o número de lote como instrumento de rastreabilidade.
Território e clima A zona de produção situa-se no vale do rio Esino, nas colinas a oeste de Ancona, abrangendo 22 municípios da Província de Ancona e 2 da Província de Macerata. A área dista aproximadamente 20 km do Mar Adriático e estende-se desde a cota de 96 m em Jesi até 630 m em Cingoli. O vale do Esino é uma singularidade geográfica nas Marcas: corre paralelamente à linha de costa adriática e recebe simultaneamente a influência da brisa marinha e do ar fresco das montanhas — condição que os produtores locais designam como território do «Verdicchio di mare», em contraste com o «Verdicchio di montagna» característico do Verdicchio di Matelica. Esse microclima único, com acentuadas amplitudes térmicas diárias, intensifica os aromas do vinho. O clima é temperado, com precipitações médias anuais de 800 mm e temperaturas máximas de 30 °C em julho e agosto. Geadas invernais e primaverais são frequentes, mas não afetam a atividade vegetativa da videira. A altitude média dos vinhedos situa-se entre 80 e 280 m (70% da área total), com o vinhedo mais alto a 750 m. A declividade varia de 0% a 70%, com 85% dos vinhedos entre 2% e 35%. A composição dos solos é heterogênea — calcários, argilosos e arenáceos —, e essa variabilidade pedológica confere ao vinho diferentes nuances qualitativas de zona a zona. As áreas planas de origem aluvial apresentam solos calcários e pedregosos; as zonas colinares exibem argilas com alto teor de carbonato de cálcio e baixa permeabilidade.
Municípios da zona DOC Classico A designação Classico é reservada aos vinhos produzidos na sub-zona histórica, composta pelos seguintes municípios: Apiro, Arcevia (em parte), Belvedere Ostrense, Castelbellino, Castelplanio, Cingoli, Cupramontana, Maiolati Spontini, Mergo, Montecarotto, Monteroberto, Morro d'Alba, Poggio San Marcello, Rosora, San Marcello, San Paolo di Jesi, Serra de' Conti (em parte), Serra San Quirico e Staffolo. A zona DOC ampliada inclui ainda os municípios de Barbara, Castelleone di Suasa, Corinaldo, Ostra, Ostra Vetere e Senigália.
A uva Verdicchio O Verdicchio é uma variedade autóctone das Marcas cujo nome deriva do italiano verde, em alusão ao reflexo esverdeado que os bagos mantêm mesmo na plena maturação. É conhecido também pelos sinônimos Verdicchio Bianco, Verdicchio Verde, Verdicchio Giallo e Turbiana, e apresenta parentesco genético com o Trebbiano di Soave e o Trebbiano di Lugana. A hipótese de origem mais aceita é a de que colonos vênetos teriam introduzido a variedade nas Marcas após uma epidemia de peste que assolou a região. A uva distingue-se pela alta acidez, sapidez e mineralidade. O perfil aromático inclui frutas de polpa branca, cítricos, flores brancas e amarelas, amêndoas, erva-doce e anis, com retrogusto característico de amêndoa amarga, marcadas notas minerais de pederneira e longa persistência. A elevada acidez natural confere ao Verdicchio notável aptidão para a espumantização e capacidade de envelhecimento invulgar entre os vinhos brancos italianos — exemplares bem elaborados de boas colheitas podem superar 20 anos de guarda. A especialista em vinhos Jancis Robinson assinala que a alta acidez é qualidade essencial para a produção de espumante de base a partir dessa variedade. Para novos plantios e replantios, o disciplinare exige densidade mínima de 2 200 cepas por hectare e proíbe a condução em latada (tendone). A irrigação de socorro é permitida.
Tipologias O disciplinare do Verdicchio dei Castelli di Jesi DOC prevê várias tipologias, todas elaboradas com no mínimo 85% de Verdicchio, com complemento opcional de outras variedades brancas aptas à cultura nas Marcas até o máximo de 15%.
Tranquilo O Verdicchio dei Castelli di Jesi tranquilo apresenta cor amarelo-palha tênue com reflexos verdolinos, aroma delicado e característico, sabor seco e harmonioso com retrogusto agradavelmente amendoado. A temperatura de serviço recomendada é de 10 a 12 °C, com potencial de guarda de 2 a 4 anos nas versões jovens. A tipologia Classico provém da sub-zona histórica; o Classico Superiore é obtido de vinhedos com rendimento por hectare inferior ao padrão DOC; a Riserva (tipologia DOC, distinta da DOCG) requer envelhecimento mínimo de 18 meses, dos quais pelo menos 6 em garrafa a contar de 1.o de dezembro do ano da vindima.
Spumante O Verdicchio dei Castelli di Jesi Spumante é um dos espumantes mais antigos da Itália, podendo ser produzido tanto pelo método clássico quanto pelo método Charmat (Martinotti). A vocação da uva para a espumantização foi documentada pelo médico fabrianense Francesco Scacchi no tratado De salubri potu dissertatio (1622), que já descrevia a refermentação em garrafa como prática conhecida desde a época romana. Serve-se entre 6 e 7 °C e é recomendado para consumo jovem, de preferência no prazo de 1 a 2 anos.
Passito O Verdicchio dei Castelli di Jesi Passito é elaborado com uvas passificadas até pelo menos 15 de outubro, resultando em vinho de grande estrutura e doçura. O disciplinare exige envelhecimento mínimo até 1.o de dezembro do ano seguinte ao da produção das uvas. A temperatura de serviço ideal situa-se entre 5 e 7 °C, com potencial de guarda de 3 a 6 anos.
DOCG Castelli di Jesi Verdicchio Riserva Reconhecida em 2010, a DOCG Castelli di Jesi Verdicchio Riserva abrange a mesma zona geográfica da DOC. Exige envelhecimento mínimo de 18 meses, sendo pelo menos 6 em garrafa a contar de 1.o de dezembro do ano de vindima; o ano de produção das uvas deve constar obrigatoriamente na etiqueta. A menção Classico é reservada ao vinho obtido na zona originária mais antiga, excluindo os territórios à esquerda do rio Misa e os de Ostra e Senigallia. São proibidas a condução em latada e qualquer prática de forçagem. Todas as operações de vinificação, envelhecimento e engarrafamento devem ser realizadas dentro da zona DOCG.
A garrafa ânfora A garrafa em forma de ânfora é o símbolo icônico do Verdicchio dei Castelli di Jesi desde 1953. O empresário farmacêutico Francesco Angelini — que havia adquirido a cantina Fazi Battaglia em Cupramontana — lançou naquele ano um concurso para a criação de uma embalagem exclusiva para o vinho. O projeto vencedor, do arquiteto Antonio Maiocchi, inspirou-se nas ânforas da antiga civilização dórica que fundou Ancona e nos recipientes etruscos, tornando a garrafa inconfundível no mercado mundial. Nos Estados Unidos, a embalagem foi apelidada informalmente de «la Sofia Loren». Em 1972, o produtor Tombolini encomendou ao designer Luigi Massoni — reconhecido por projetos para Alessi, Boffi, Poltrona Frau e Guzzini — uma versão própria da ânfora, denominada Castelfiora, que influenciaria designs posteriores.
Produção e mercado O Verdicchio dei Castelli di Jesi é produzido em área de aproximadamente 2 110 hectares, com 610 hectares de vinhedos reestruturados, 443 produtores de uvas, 102 cantinas vinificadoras e 136 engarrafadoras. O volume de vinho DOC certificado ultrapassa 147 000 hectolitros anuais, com cerca de 165 000 hl engarrafados, gerando faturamento de aproximadamente 37,5 milhões de euros — 52% no mercado interno e 48% em exportações. Os principais mercados de exportação são os Estados Unidos (22%), o norte da Europa (20%), a Alemanha (17%), o Reino Unido (8%) e a China (6%).
Harmonização O Verdicchio dei Castelli di Jesi harmoniza-se com a culinária de frutos do mar: antepastos de peixe fresco ou cru, massas, risotos e sopas de peixe, grelhados mistos de frutos do mar e peixes assados — especialmente tamboril, rodovalho e robalo. Acompanha também carnes brancas, em especial o coelho, e queijos. A tipologia Spumante serve-se a 6–7 °C como aperitivo ou com frutos do mar. O Passito adapta-se a sobremesas e queijos curados, servido entre 5 e 7 °C.
Referências
Ligações externas «Istituto Marchigiano di Tutela Vini – Verdicchio dei Castelli di Jesi» (em italiano) «Quattrocalici – Disciplinare e tipologias» (em italiano)
