Un lycée de jeunes filles (em português: O liceu de moças ou A escola de moças) é um curta-metragem francês de filme mudo e documentário de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès. Distribuído pela Star Film, o filme é registrado com o número 19 em seu catálogo. Com aproximadamente 20 metros de película, equivalentes a cerca de um minuto de projeção, registra o cotidiano de um liceu feminino francês — estabelecimento de ensino secundário público criado pela Lei Camille Sée de 1880 e que, em 1896, ainda era uma instituição relativamente recente na sociedade francesa. O filme é considerado perdido.
Os liceus femininos na França A criação dos liceus públicos femininos na França é resultado direto da Camille Sée, aprovada em 21 de dezembro de 1880 pelo parlamento e promulgada pelo presidente Jules Grévy. Antes dessa legislação, as jovens que desejavam prolongar os estudos dispunham apenas de estabelecimentos confessionais privados; a lei criou uma rede laica e pública destinada a formar as mulheres fora do controle da Igreja Católica, dentro dos valores da Terceira República Francesa. O currículo desses liceus era distinto do dos liceus masculinos — sem latim, sem grego e sem preparação para o baccalauréat —, e incluía disciplinas como economia doméstica, higiene e trabalhos de agulha ao lado de matérias como história, literatura e ginástica. O debate em torno desses estabelecimentos permanecia vivo em 1896: republicanos defendiam os liceus femininos como instrumento de emancipação e de formação de cidadãs comprometidas com os valores da República; clericais viam neles uma ameaça à influência da Igreja sobre a educação das mulheres. Era nesse contexto de instituição ainda nova e culturalmente carregada que Méliès apontou sua câmera para um desses liceus.
Produção Georges Méliès realizou Un lycée de jeunes filles em 1896, durante a fase inicial de sua carreira cinematográfica, quando ainda seguia o modelo dos Irmãos Lumière de registrar cenas do cotidiano ao ar livre ou em locações reais, sem truques de câmera ou narrativa ficcional. O filme integra o conjunto de filmes de atualidade produzidos entre 1896 e 1900, que totalizam 93 títulos — cerca de 18% de toda a obra de Méliès. A escolha de um liceu feminino como tema não era casual. Os novos estabelecimentos de ensino laico para mulheres eram uma novidade visível na paisagem urbana francesa, e sua presença no cotidiano das grandes cidades os tornava objetos naturais de curiosidade e registro — tanto para os pioneiros do cinema quanto para o público que frequentava as sessões no Théâtre Robert-Houdin. O interesse pelo tema era compartilhado pelos próprios Lumière: o operador de câmera Gabriel Veyre realizou no mesmo ano o curta Défilé de jeunes filles au lycée (presumivelmente em português: Desfile de moças no liceu, 1896), no qual jovens executam exercícios de ginástica no pátio de um liceu ao ritmo de tambores. O paralelo ilustra como os liceus femininos, enquanto símbolo da modernização republicana, atraíam o olhar dos cineastas da época como tema digno de documentação. O número 19 no catálogo da Star Film situa o filme dentro de uma sequência de registros urbanos parisienses: os títulos vizinhos incluem vistas da Place de l'Opéra (n.o 17) e do Boulevard des Italiens (n.o 18). Não há informações sobre qual liceu específico foi filmado; dada a concentração das filmagens de Méliès em Paris e arredores, é provável que fosse um dos liceus femininos parisienses então existentes, todos situados em bairros burgueses da capital.
Contexto no catálogo Star Film Un lycée de jeunes filles ocupa o número 19 no catálogo da Star Film, empresa fundada por Méliès em 2 de dezembro de 1896. Os filmes vizinhos — Boulevard des Italiens (n.o 18) e Bois de Boulogne (Touring Club) (n.o 20) — são ambos considerados perdidos, tornando este trecho do catálogo inteiramente inacessível ao pesquisador contemporâneo. A partir de 1897, a Star Film passou a comercializar seus títulos também nos Estados Unidos, por meio do irmão de Méliès, Gaston Méliès, ampliando a distribuição internacional do catálogo.
Preservação O filme é classificado como filme perdido, condição compartilhada pela esmagadora maioria dos títulos de Méliès de 1896. O suporte em nitrato de celulose era altamente inflamável e quimicamente instável; parte significativa dos negativos foi destruída pelo próprio Méliès durante a crise financeira que enfrentou após a Primeira Guerra Mundial, e outra parte foi confiscada pelo exército francês durante o conflito. Estima-se que, dos aproximadamente 520 filmes realizados por Méliès entre 1896 e 1912, apenas cerca de 200 tenham sobrevivido.
Ver também Georges Méliès Star Film Company Camille Sée Filme perdido Filme mudo Filme de atualidade
Referências
Ligações externas «Un lycée de jeunes filles no IMDb» (em inglês) «Lei Camille Sée de 21 de dezembro de 1880 (texto integral) – Légifrance» (em francês)