Sidrai ibne Uazir (em árabe: سِدرَي بن وزير; romaniz.: Sidray ibn Wazīr), melhor conhecido apenas pelo seu nisba Ibne Uazir, foi um líder muçulmano do Garbe Alandalus ativo durante a crise que levou ao colapso do domínio almorávida na Península Ibérica em meados do século XII. Inicialmente governador de Évora em nome dos almorávidas, aderiu à revolta de Ibne Cassi em 1143/4 e recebeu o governo de Beja como recompensa. Nos anos seguintes, consolidou uma posição de destaque entre os caudilhos do ocidente andalusino, ampliando sua autoridade sobre parte do Alentejo e de Badajoz. Após romper com Ibne Cassi em 1145, derrotou e aprisionou Ibne Almondir, conquistou Silves e Mértola e tornou-se um dos mais poderosos governantes regionais da época. Evidências epigráficas sugerem que, durante o período de fragmentação do poder central, chegou a assumir o título de Alimame Almançor Bilá (em árabe: الإمام المنصور بالله; romaniz.: al-Imām al-Manṣūr bi-llāh; "o imame vitorioso por Deus"), indicando pretensões à soberania suprema. A ascensão dos almóadas alterou profundamente o equilíbrio político da região. Em 1146, Ibne Uazir foi forçado a reconhecer a autoridade do novo poder magrebino, embora tenha conseguido conservar o governo de Beja. Nos anos seguintes, oscilou entre períodos de ampla autonomia e de colaboração com os almóadas, participando da conquista de Sevilha em 1147 e recuperando Silves após o assassinato de Ibne Cassi em 1151. Em 1154 deslocou-se a Marraquexe para prestar homenagem ao califa Abde Almumine e solicitar apoio militar contra o avanço cristão. Após a consolidação do domínio almóada no extremo ocidente do Alandalus, abandonou o governo do Algarve em 1157 e passou a servir a administração califal em Sevilha. Sua última menção conhecida data de 1170, quando participou do cerco de Badajoz contra as forças de Geraldo Sem Pavor.
Vida Sidrai ibne Uazir nasceu em data incerta ao longo do século XII. Suas origens são pouco claras, mas presume-se que começou sua carreira exercendo funções menores na hierarquia do Império Almorávida. Aparece pela primeira vez nos início dos anos 1140, quando era governador de Évora em nome do emir Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143). Em 1143/4, Ibne Cassi declarou revolta aberta contra a autoridade almorávida e Ibne Uazir decidiu prestar-lhe vassalagem, sendo recompensado com o governo de Beja. Numa ação conjunta de Ibne Almondir e Ibne Uazir, o castelo de Monchique foi conquistado e sua guarnição almorávida foi massacrada. Durante o ano de 1145, enquanto Ibne Almondir conduzia uma campanha contra Sevilha em nome de Ibne Cassi, Ibne Uazir foi encarcerado em Mértola e substituído no governo de Beja por Abu Talibe Azuri. Pouco tempo depois, contudo, foi libertado e reassumiu o controle de Beja, ampliando gradualmente sua esfera de influência. Em algum momento subsequente, acrescentou Badajoz aos seus domínios alentejanos, consolidando-se como um dos mais poderosos líderes regionais do Garbe Alandalus. Em março no mesmo ano, o cádi de Córdova, Ibne Hamedine, foi proclamado soberano da cidade. Com o objetivo de atrair os cordoveses para sua causa, Ibne Cassi enviou tropas sob o comando de Ibne Almondir e de Ibne Alcabila. A expedição, entretanto, foi derrotada por Ibne Gania, filho do falecido emir Ali ibne Iúçufe. Esse revés, somado à notícia da morte do emir almorávida Taxufine ibne Ali no mesmo mês, levou Ibne Cassi a convocar seus vassalos. Ibne Uazir recusou-se a comparecer, num gesto de aberta insubordinação. Enviado contra ele, Ibne Almondir foi derrotado e aprisionado em Beja. Foi provavelmente nesse contexto que Ibne Uazir rompeu definitivamente com Ibne Cassi e passou a reconhecer a autoridade suprema, ainda que apenas nominal, de Ibne Hamedine, em Córdova.
Nos meses que se seguiram, Ibne Uazir conquistou Silves e Mértola, encerrando o governo de Ibne Cassi sobre essas regiões e colocando fim ao seu domínio independente. Em janeiro de 1146, Ibne Hamedine foi deposto de Córdova em favor de Ibne Gania. A julgar pela existência de ao menos um dinar de ouro cunhado por Ibne Uazir com seu nome associado ao nome do último emir almorávida, Isaque ibne Ali (r. 1145–1147), presume-se que tenha declarado vassalagem nominal aos almorávidas novamente. Em setembro, Ibne Cassi atravessou o estreito de Gibraltar em direção ao Norte da África, onde procurou apoio junto aos almóadas para recuperar sua posição. O califa Abde Almumine (r. 1133–1163) aceitou ajudá-lo e em junho de 1146, o primeiro exército almóada desembarcou na Península Ibérica acompanhado por Ibne Cassi. As forças almóadas reconquistaram Mértola e Silves de Ibne Uazir, restituindo ambas as cidades a Ibne Cassi, que passou a governar a partir de Silves. Após submeter-se aos novos senhores do Magrebe, Ibne Uazir foi autorizado a permanecer no governo de Beja. Situação semelhante ocorreu com Ibne Alhajame, que conservou o controle de Badajoz, cidade anteriormente retirada da esfera de influência de Ibne Uazir. No início de 1147, os almóadas conquistaram Sevilha com a colaboração de diversos chefes andalusinos, entre eles Ibne Cassi e Ibne Uazir. Entre abril e julho, os almóadas foram expulsos de Sevilha, ao mesmo tempo em que uma revolta generalizada eclodiu no Magrebe contra o Califado Almóada. Aproveitando-se dessa conjuntura, diversos caudilhos andalusinos abandonaram sua lealdade aos almóadas e declararam-se independentes. Uma inscrição descoberta em Évora apresenta o nome de Ibne Uazir precedido pelo título Alimame Almançor Bilá (em árabe: الإمام المنصور بالله; romaniz.: al-Imām al-Manṣūr bi-llāh), ou seja, "o imame vitorioso por Deus (Alá)". Assumindo que a inscrição date desse período, ela atesta que Ibne Uazir se proclamou soberano supremo dos territórios sob sua autoridade. Em outubro de 1147, Lisboa foi conquistada pelas forças cristãs. Há indícios de que os muçulmanos da região tenham solicitado auxílio a Ibne Uazir diante da ameaça representada pelo avanço dos reinos cristãos. Apesar disso, a chegada de um segundo exército almóada à Península, por volta de 1148/9, não parece ter alterado significativamente a autonomia então desfrutada pelos governantes do Garbe Alandalus. No início de 1151, o califa Abde Almumine convocou os chefes andalusinos para que lhe prestassem homenagem em Salé, dentre os quais Ibne Uazir. Ibne Cassi recusou-se a obedecer e procurou estabelecer uma aliança com o rei português Afonso Henriques (r. 1143–1185). Em agosto ou setembro do mesmo ano, Ibne Cassi foi assassinado em Silves e sucedido por Ibne Almondir. Com o consentimento dos almóadas, Ibne Uazir conquistou Silves pouco depois, reunificando sob sua autoridade grande parte do ocidente andalusino. Em 1154, Ibne Uazir deslocou-se a Marraquexe para prestar homenagem ao califa e solicitar reforços militares que lhe permitissem resistir de forma mais eficaz ao avanço dos reinos cristãos sobre seus domínios. Alguns anos mais tarde, na primavera de 1157, após os almóadas retomarem os redutos rebeldes de Tavira e Mértola, Ibne Uazir abandonou o governo do Algarve. A partir de então, passou a servir a administração almóada em Sevilha, integrando-se definitivamente às estruturas do califado. Em 1159/60, o senhor Ibne Mardanis sitiou Córdova, então em posse dos almóadas. Ao longo do cerco, recebeu carta forjada do cádi Aquil ibne Idris, que lhe fora entregue por um servo disfarçado de oleiro, pedindo que sitiasse Sevilha, onde Ibne Uazir lhe entregaria a cidade. Ibne Mardanis concordou com isso, abandonou o cerco, e se aproximou de Sevilha, que encontrou bloqueada. Sua presença, no entanto, compeliu os sevilhanos pró-almóadas a massacrarem aqueles que poderiam apoiá-lo. Em maio de 1163, o califa Abde Almumine morreu em Rabate, enquanto reunia tropas para uma grande expedição ao Alandalus. O historiador Ibne Saíbe Assalate afirmou que o exército contava com 100 mil cavaleiros e 100 mil infantes, e que seu acampamento se estendia até a fonte de Gabula, situada a cerca de 19 quilômetros de Rabate. Segundo Ibne Uazir, que estava presente, a intenção era lançar uma ofensiva em quatro frentes: contra Portugal, em Coimbra; contra Leão, em Cidade Rodrigo; e contra Castela, em Toledo e Barcelona. Em janeiro de 1165, o califa Abu Iacube Iúçufe I organizou uma expedição que partiu de Marraquexe para o Alandalus, visando assegurar a lealdade de seu meio-irmão, Abuçaíde Otomão, que governava Córdova. Ela foi comandada seu irmão Abu Háfece Omar e incluía diversos altos dignitários almóadas, líderes andalusinos como Ibne Uazir e um contingente de quatrocentos xeiques ex-almorávidas das tribos massufas e lantunas. A maior parte da força era composta por quatro mil cavaleiros árabes sob o comando de dois importantes oficiais almóadas. Quando a expedição alcançou Gibraltar, em fevereiro ou março, Abuçaíde Otomão deslocou-se de Córdova para jurar fidelidade ao califa, acompanhado por outros notáveis do Alandalus. Após permanecer quinze dias em Gibraltar, Abu Háfece Omar regressou a Marraquexe levando consigo seu irmão Abuçaíde Otomão. Os soldados árabes e seus comandantes almóadas seguiram para Córdova, onde deveriam auxiliar na defesa da cidade contra as investidas de Ibne Mardanis, enquanto um destacamento de quinhentos homens foi enviado para Badajoz, constantemente ameaçada pelos cristãos. Em 1170, quando a fronteira ocidental do Alandalus sofria intensa pressão das incursões de Geraldo Sem Pavor, os almóadas enviaram novos reforços à Península Ibérica sob o comando de Abu Háfece Omar. Entre os membros da expedição encontrava-se Ibne Uazir. Sua presença deveu-se não apenas ao seu prestígio político, mas também ao seu conhecimento da região e das condições locais da guerra na fronteira com os reinos cristãos. Após a chegada da expedição, no outono, Ibne Uazir foi enviado a Badajoz juntamente com Abuçaíde Otomão. Nessa ocasião, participou das negociações que renovaram a aliança entre os almóadas e o rei leonês Fernando II (r. 1157–1188), interessado em impedir que Badajoz caísse sob controle português. O encontro ocorreu no campo de Zalaca, célebre pela vitória almorávida sobre os castelhanos em 1086. Segundo o cronista Ibne Saíbe Assalate, que utilizou Ibne Uazir como uma de suas principais fontes de informação, este foi escolhido para a missão diplomática por dominar a língua dos cristãos. Durante as negociações, alguns cristãos chegaram a furtar seu turbante, episódio que o próprio cronista relata e que terminou quando Abuçaíde Otomão lhe ofereceu o seu próprio turbante em sinal de consideração. O episódio constitui a última referência conhecida à atuação política de Ibne Uazir. É possível que tenha participado do cerco de Badajoz, que era protegida pela guarnição de Geraldo Sem Pavor. Em data incerta, concedeu uma escrava de Silves ao califa Abu Iacube Iúçufe, que gerou seu filho e sucessor Abu Iúçufe Iacube Almançor (r. 1184–1199).
Referências
Bibliografia
