E aí, Marias!Sabe quando você conhece alguém sem nunca ter conhecido de verdade? Você sabe o nome, já ouviu histórias, recebeu e-mails, criou opiniões e, sem perceber, montou uma pessoa inteira dentro da sua cabeça. Pois a Maria desta semana fez exatamente isso. O problema é que, um belo dia, a personagem que ela tinha criado resolveu aparecer em carne e osso. E sentou-se bem ao lado dela. Se você acha que isso já parece perigoso, espere até descobrir o assunto escolhido para a conversa.==========Eu trabalhava em uma empresa grande e havia uma mulher de outro departamento chamada Renata. Nunca tínhamos sido apresentadas pessoalmente, mas eu conhecia muito bem aquele nome. Renata era responsável por aprovar algumas demandas do meu setor e, na minha cabeça, tinha transformado em missão pessoal dificultar a minha vida. Era documento que voltava porque faltava uma informação, planilha que precisava ser refeita, prazo que ela considerava apertado demais e aqueles e-mails curtos que terminavam com um “aguardo retorno” capaz de acabar com o humor de qualquer ser humano.Eu nunca tinha visto Renata. Nem em foto. Nossa comunicação era praticamente toda por e-mail e, por alguma razão, ao longo dos meses fui construindo uma imagem dela na minha cabeça. Eu imaginava uma mulher séria, mal-humorada, sentada diante do computador, procurando alguma coisa errada nos meus pedidos. Hoje reconheço que talvez eu estivesse exagerando um pouco. Naquela época, porém, tinha certeza de que Renata acordava todas as manhãs, tomava seu café e pensava: “Como será que eu posso infernizar a vida da Maria hoje?”.Até que a empresa organizou um treinamento reunindo funcionários de vários departamentos. Cheguei cedo, sentei-me numa mesa durante o café e uma mulher que eu nunca tinha visto sentou-se ao meu lado. Começamos a conversar e ela era extremamente simpática. Falamos sobre o evento, sobre trabalho, sobre como aquelas reuniões sempre demoravam mais do que deveriam e, em poucos minutos, parecíamos duas velhas conhecidas. Em algum momento, ela perguntou em que área eu trabalhava. Respondi e ela comentou que conhecia bastante gente do meu departamento.Foi aí que cometi o erro.Eu poderia ter perguntado o nome dela. Poderia ter falado sobre o tempo. Poderia ter ficado em silêncio. Havia dezenas de caminhos disponíveis e praticamente todos me levariam a um lugar melhor. Mas escolhi dizer: “Então você deve conhecer a Renata”.Ela me olhou e perguntou: “Conheço. Por quê?”.Marias, aquele “por quê?” era a última oportunidade que o universo estava me oferecendo para sair daquela situação com dignidade. Eu poderia ter respondido “por nada” e seguido a vida. Mas eu estava diante de uma mulher simpática, aparentemente interessada e, pior, disposta a me ouvir. Meses de sentimentos represados encontraram uma saída.Comecei pelos e-mails. Contei que Renata devolvia tudo, implicava com detalhes e parecia ter um prazer especial em encontrar problemas onde, na minha opinião, não existiam. A mulher me escutava atentamente e, de vez em quando, fazia alguma pergunta. Isso só me incentivava. Falei que provavelmente Renata tinha uma pasta no computador chamada “Coisas para devolver para a Maria”. Imitei o jeito seco dos e-mails dela, especialmente o famigerado “aguardo retorno”. A essa altura, minha nova amiga já estava segurando o riso, e eu interpretei aquilo como solidariedade.Quanto mais ela ria, mais eu falava. Contei que uma vez Renata devolveu uma solicitação três vezes. Disse que eu tinha vontade de responder apenas: “Renata, pelo amor de Deus”. Falei que aquela mulher devia ser insuportável pessoalmente e que eu tinha certeza de que, se um dia nos encontrássemos, não conseguiríamos passar cinco minutos juntas. Ela me perguntou: “Mas você nunca conheceu a Renata pessoalmente?”. E eu, com toda a segurança de quem estava prestes a ser atropelada pela própria língua, respondi: “Nunca. E, sinceramente? Acho melhor continuar assim”.Ela começou a rir.Mas a rir de verdade.Eu também ri, porque ainda não fazia ideia de que a piada era eu.Continuamos conversando por mais alguns minutos até que uma mulher se aproximou da mesa, olhou para minha nova amiga e disse: “Renata, finalmente te achei! Estão te esperando lá dentro”.Eu congelei.Olhei para a mulher que estava em pé. Depois olhei para a mulher sentada ao meu lado. Depois voltei a olhar para a mulher em pé, como se existisse alguma possibilidade de ela estar falando com uma terceira Renata escondida debaixo da mesa.Não existia.Minha nova amiga estendeu a mão para mim, ainda rindo, e disse: “Prazer. Agora oficialmente”.Eu queria desaparecer. Não ir embora. Não pedir desculpas. Desaparecer. Virar fumaça, atravessar o chão, ser convocada para uma missão urgente em outro continente. Qualquer coisa que me impedisse de permanecer sentada diante da mulher sobre quem eu acabara de fazer uma palestra de meia hora.Comecei a pedir desculpas, atropelando as palavras. Disse que não sabia quem ela era, que tinha exagerado, que os e-mails realmente me deixavam nervosa, mas que, obviamente, eu não deveria ter falado daquele jeito. Renata deixou que eu me enrolasse por alguns segundos e então respondeu: “Relaxa. Pelo menos agora eu sei por que você demora tanto para responder meus e-mails”.Eu ri. Primeiro de nervoso. Depois, porque não tinha mais o que fazer. E, para minha surpresa, ela também continuou rindo. Ficamos conversando por mais alguns minutos e descobri que aquela mulher, que eu tinha transformado numa espécie de vilã corporativa, era engraçada, simpática e muito diferente da personagem que eu havia criado. Ela ainda me explicou que muitas das coisas que devolvia não eram implicância: eram exigências do próprio processo e, se aprovasse errado, o problema acabaria sobrando para ela.Depois daquele dia, nossa relação mudou completamente. Os e-mails continuaram chegando. Algumas demandas continuaram voltando. O “aguardo retorno” continuou existindo e, confesso, ainda me provocava uma pequena irritação. Mas toda vez que lia o nome Renata na caixa de entrada, eu lembrava daquela mesa, daquela conversa e da vontade que tive de desaparecer quando ouvi alguém chamá-la pelo nome.==========Que história, hein, Marias!!!Talvez a maior vergonha dessa situação nem seja ter falado mal de alguém para a própria pessoa. É perceber como somos capazes de criar versões inteiras das pessoas a partir de pequenos pedaços delas. Um e-mail mais seco vira arrogância. Uma cobrança vira perseguição. Uma resposta curta vira antipatia. E, quando percebemos, estamos brigando não com quem aquela pessoa é, mas com quem imaginamos que ela seja.Conhecer Renata não fez a Maria gostar de receber trabalho de volta. Mas fez com que ela enxergasse uma pessoa onde antes existia apenas um nome irritante na caixa de entrada. E talvez valha guardar isso para a próxima vez que tivermos certeza absoluta sobre alguém que mal conhecemos.Agora, se puder escolher, faça essa descoberta antes de passar meia hora falando mal da pessoa para ela mesma.Até a próxima semana!Um beijo, Maria.✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Falei mal dela por meia hora. O problema? Eu estava falando com ela
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