Dark Woke, também conhecido como Woke 2.0, é um fenômeno desenvolvido nas redes sociais. Se trata de uma estratégia de comunicação política cunhada em janeiro de 2025, após a segunda posse presidencial de Donald Trump nos Estados Unidos. O uso do termo defende uma mudança nas estratégias da abordagem política progressista, invocando a retórica mais agressiva, direta e "politicamente incorreta", como resposta às estratégias da mídia conservadora. A abordagem contrasta com as normas tradicionais de comunicação da esquerda, focando em capturar a atenção do público de forma semelhante à abordagem de Trump (e, no contexto brasileiro, de Jair Bolsonaro), priorizando a visibilidade e o impacto emocional, abrindo mão do debate disciplinado.
O termo O New York Times definiu o Dark Woke em 2025 como uma “tentativa de ultrapassar os limites do politicamente correto que os republicanos acusam os democratas de estabelecer”. Tal filosofia presa um afastamento das estratégias de comunicação clássicas do Partido Democrata, enfatizando mensagens agressivas e confronto verbal direto em vez da esperada boa postura. O movimento se manifesta principalmente através de conteúdo em redes sociais, combinando mensagens políticas progressistas com humor provocativo e sombrio, além da retórica agressiva contra a oposição conservadora. Exemplos do termo adentrando o léxico da internet incluem uma postagem no X (previamente conhecido como Twitter) afirmando: "minha avó votou no Trump, então me certifiquei de que ela caísse da escada" ao lado da foto de uma mulher branca idosa se encolhendo de dor. A conta responsável pelo pela declaração foi suspensa da rede social. Outra ilustração do fenômeno é Gritty, mascote do time de hóquei Philadelphia Flyers, introduzido pela primeira vez em 2018. Sua aparência inusitada (similar a um muppet) fez sucesso principalmente entre usuários de esquerda, que passaram a usar o mascote como ilustração em memes e piadas críticos do ponto de vista conservador. Em uma publicação viral no site X/Twitter, Gritty carrega uma bandeira do Orgulho LGBTQIA+ enquanto patina pelo gelo; a legenda diz "Quando ele espanca homofóbicos com essa bandeira, isso é #DarkWoke." Peter Rothpletz, redator sênior do Don Lemon Show e colunista do The Guardian, argumenta que o Dark Woke evidencia a importância do volume de atenção ao invés do tipo de atenção, semelhante às práticas retóricas de Donald Trump. Rothpletz diz que, ao contrário das estratégias comuns entre democratas, o movimendo Dark Woke não evita a atenção negativa. Ele citou Ezra Klein, cujo trabalho no The New York Times alega que Donald Trump e sua postura a respeito da oposição são "o motor do sucesso de Trump". Tais atitudes fazem com que sua retórica seja convincente, permitindo que ele se manifeste de maneiras pouco convencionais. Segundo Rothpletz, defensores do movimento Dark Woke acreditam que as estratégias de comunicação dos democratas se tornaram ineficazes nos ambientes midiáticos contemporâneos. Ele se referiu às atitudes como "um apelo para que o partido lute a guerra virtual que realmente existe, não aquela que eles gostariam que existisse". Analistas políticos, como Chris Hayes da MSNBC, observaram que tais ações representavam uma mudança fundamental na abordagem da comunicação política. O movimento é visto como um confronto às qualidades "woke" que se popularizaram em discuros nas redes sociais na década de 2010. Muitos progressistas as consideram constrangedoras: a vigilância moralista e o politicamente correto extremo têm como meta estabelecer superioridade ética e capital social. Em vez de defender a atitude "eles jogam sujo, nós jogamos limpo" associada à retórica woke, o grupo Dark Woke está adotando uma abordagem de "eles jogam sujo, nós jogamos mais sujo ainda". O movimento Dark Woke ganhou força quase inteiramente online, começando como uma forma de trollagem irônica na internet. No entanto, a ideia logo se tornou algo relevante. Figuras políticas e cidadãos frustrados perceberam que a estratégia atraía mais atenção do que abordagens anteriores centradas na civilidade. Em 2025, num podcast do New York Times, Chris Hayes explicou a disparidade que existe entre democratas e republicanos a respeito do "ecossistema da atenção". Ele argumentou que os democratas "ainda acreditam que o tipo de atenção que você recebe é a coisa mais importante". Por outro lado, a facção pró-Trump dos republicanos "acredita que o volume, a soma total da atenção, é a coisa mais importante. Receber muita atenção negativa não é uma coisa boa – talvez seja ótima." O Dark Woke é a tentativa da esquerda progressista de imitar a estratégia do lado adversário, argumentando que o clima político atual exige medidas mais drásticas, ao invés de respostas polidas e politicamente corretas.
História O movimento Dark Woke foi descrito pela mídia como uma evolução da abordagem "dirtbag left", que ia contra as ideias "woke" presentes na esquerda sem deixar que a política se torne reacionária. Durante o primeiro mandato presidencial de Donald Trump, entre 2017 e 2021, os democratas adotaram amplamente o que ficou conhecido como a estratégia de "#Resistance" ("#Resistência", em tradução livre), abordagem de afronta caracterizada pela oposição consistente às políticas do governo Trump. A estratégia se manifestou por meio da oposição legislativa, protestos públicos e engajamento agressivo nas redes sociais. Após as derrotas eleitorais democratas em 2024, a liderança do partido, como o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, e o líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries, pediram que seus colegas se afastarem de conflitos baseados em personalidades, que se concentrarem em críticas substanciais e objetivas às apólices republicanas. O senador Chris Murphy descreveu os grupos de direita como tendo um "ecossistema de informação permanente" que lhes permite deturpar mensagens democráticas online, impedindo que elas se amplifiquem para um público maior. O termo "Dark Woke" ganhou destaque primeiramente na plataforma de mídia social X/Twitter durante as cerimônias da segunda posse de Trump. O termo surgiu como uma referência ao meme "Dark Brandon", alter-ego satírico do ex-presidente Joe Biden. Após o discurso "Battle for the Soul of the Nation" (1o de setembro de 2022) contra Trump e seus apoiadores, a própria Casa Branca abraçou o meme. "Dark Brandon" foi usado como estratégia de marketing para apoiar a presidência de Biden, buscando apoio das gerações mais jovens. Dark Woke emergiu em reconhecimento em meio a mudanças políticas significativas no início de 2025 conduzidas pelo governo Trump, incluindo amplos cortes corporativos em programas de cotas (conhecidos nos EUA como "Diversidade, Equidade e Inclusão", ou DEI) e mudanças consideráveis em apólices federais contra a discriminação. Enquanto figuras democratas mais centristas defendem um debate disciplinado, legisladores alinhados com posições mais progressistas, como Don Beyer (representante do estado de Virgínia) e Alexandria Ocasio-Cortez, demonstraram maior interesse nas abordagens combativas. Essa postura veio à tona principalmente com relação à clemência concedida por Trump aos réus do Ataque ao Capitólio dos Estados Unidos em 2021. A proliferação do termo "Dark Woke" foi acelerada graças a uma interação entre a representante democrata Alexandria Ocasio-Cortez e a influenciadora conservadora Chaya Raichik. A troca de mensagens começou quando AOC publicou um vídeo no Instagram explicando sua ausência nos eventos de posse, afirmando: "Eu não celebro estupradores". Em sua conta @LibsofTikTok, Raichik criticou Ocasio-Cortez. Ela afirmou ao âncora da ABC News, George Stephanopoulos, que Trump deveria processá-la (em referência ao Caso E. Jean Carroll v. Donald J. Trump, por difamação). Ocasio-Cortez respondeu com: "Ah, foi gatilho? Chora mais." A resposta rapidamente alcançou 17 milhões de visualizações e muitos usuários elogiaram sua abordagem, recorrendo à resistência mais direta. A situação começou a ser reconhecida como exemplo do uso prático da abordagem "Dark Woke". A nova estratégia, assim como o reconhecimento do termo, estenderam-se à ações na vida real, como vídeos retratando o vandalismo de produtos associados a figuras conservadoras, como o Tesla Cybertruck. O carro "indestrutível" e extremamente perigoso foi criado pelo multi-bilionário Elon Musk. No começo do segundo mandato de Trump, Musk se tornou uma espécie de braço direito do presidente, mas desentendimentos separaram esta parceria em poucos meses. Uma manobra midiática do governador da Califórnia, Gavin Newsom, consistiu em exibir joelheiras, insinuando que eram para líderes que "vendidos" ao governo de Donald Trump.
Dados demográficos Observa-se que a tendência da abordagem Dark Woke é especialmente comum entre mulheres brancas mais jovens. No segundo semestre de 2025, o pesquisador republicano Alex Tarascio perguntou a potenciais eleitores se eles concordavam que "é aceitável ir além do protesto pacífico em resposta à violência perpetuada pelo ICE, mesmo que isso viole a lei". Apenas 24% da população geral dos Estados Unidos disseram concordar. Entre mulheres brancas de 18 a 44 anos que se identificam como liberais, a taxa sobe para 61%. Quanto ao motivo desse fenômeno, não há evidências concretas. No entanto, pesquisadores levantam a hipótese de que o senso de impotência e o anseio pelo envolvimento na luta por justiça social esteja ligado à saúde mental.
Crítica Diversos legisladores democratas, como Tom Suozzi (representante de Nova Iorque) e Susie Lee (representante de Nevada) expressaram a preocupação de que pontos de vista agressivos à ideologia republicana prejudicaria suas perspectivas eleitorais em áreas centristas. Lee argumentou contra uma "reação instintiva de se opor a tudo", defendendo que a análise das apólices de Trump são argumentos bem-vistos por eleitores em distritos moderados, que representam possíveis futuros democratas. Kieran Press-Reynolds, jornalista do Pitchfork especializado em cultura, descartou o movimento como um todo, chamando-o de "capricho algorítmico feito para gerar emoções passageiras". Ele também acredita que a tentativa de assimilar um movimento de oposição radical ao Partido Democrata não traria sucesso eleitoral, similarmente às apropriações de movimentos progressistas anteriores como "Dark Brandon" e "BRAT". Para que a estratégia tivesse sucesso, democratas tradicionais precisariam abraçar mudanças políticas substanciais que apelam de forma concreta aos jovens progressistas desiludidos. O jornalista Ross Barkan afirma que o verdadeiro problema do movimento Dark Woke é que se trata de uma "tentativa obviamente falsa de representar autenticidade crua". Ele o vê como uma tentativa em vão de se nivelar à falta de decoro político de Donald Trump, de causar um choque que raramente atrai eleitores. Os republicanos descartam os esforços dos democratas como mera conversa fiada. CJ Pearson, ativista conservador e apresentador de podcast, observou que “eles precisam parar de tentar copiar nosso trabalho e inventar algo próprio... se fizerem isso, será muito mais autêntico do que o que estão fazendo agora”. Apesar de suas tentativas de maior engajamento, os democratas ainda não estão no mesmo nível dos republicanos quando se trata de mídia digital. De acordo com o The Washington Post, os conservadores têm uma década de vantagem. Eles vêm cultivando podcasters influentes, personalidades das redes sociais e veículos digitais há muito mais tempo, menos preocupados com a “cultura do cancelamento” e com uma reputação intacta do que a esquerda. Muitas plataformas de mídia conservadoras proeminentes surgiram como oposição à presidência de Obama — PragerU em 2009, o Daily Caller em 2010, o Washington Free Beacon e o Turning Point USA de Charlie Kirk em 2012, o Federalist em 2013, o Daily Wire em 2015. De acordo com um estudo do Pew Research Center de 2024, cerca de 27% dos influenciadores de notícias se identificam como republicanos, conservadores ou pró-Trump, em comparação com os 20% que se identificam como liberais. É claro que os números absolutos não são um indicador direto da influência da mídia, mas certamente tornam mais difícil para estratégias liberais mais recentes, como o Dark Woke, ganharem força.
Ver também Dirtbag left Hasan Piker Ativismo performativo Socialismo revolucionário
Referências