Bunocephalus minerim, conhecido popularmente como bagre-banjo e peixe-banjo, é uma espécie peixe siluriforme da família dos aspredinídeos (Aspredinidae) e do gênero Bunocephalus, um grupo amplamente distribuído pelos sistemas fluviais da América do Sul. Os representantes do gênero caracterizam-se pelo corpo fortemente deprimido, hábitos bentônicos e associação com ambientes de fundo em riachos e rios de correnteza lenta. A espécie foi descrita formalmente em 2015 por Tiago P. Carvalho, Alexandre R. Cardoso, John P. Friel e Roberto E. Reis, juntamente com Bunocephalus hartti, a partir de exemplares coletados na bacia do rio São Francisco. Distingue-se de seus congêneres principalmente pela ausência da barra epifisária entre os ossos frontais e pela presença de nove raios principais na nadadeira caudal. Trata-se de um peixe de pequeno porte, alcançando cerca de 4,9 centímetros de comprimento padrão, com cabeça e corpo deprimidos, olhos reduzidos e coloração variável em tons de marrom. É endêmica do Brasil, onde ocorre em diversos tributários das porções alta e média da bacia do rio São Francisco, no estado de Minas Gerais, sendo exclusiva do bioma Cerrado. Como outros membros do gênero, vive associada ao substrato de riachos e rios, frequentemente entre folhiço submerso ou enterrada em fundos arenosos. Sua dieta é composta por insetos terrestres, larvas aquáticas, pequenos peixes e material vegetal. Um aspecto notável de sua biologia é a presença de ovos aderidos diretamente ao corpo das fêmeas durante o desenvolvimento embrionário, forma incomum de cuidado parental entre os bagres-banjo. A espécie encontra-se classificada como pouco preocupante (LC) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), com extensão de ocorrência estimada em aproximadamente 75 mil quilômetros quadrados. Embora não existam evidências de declínios populacionais expressivos ou fragmentação severa, a qualidade de seus habitats sofre impactos decorrentes da mineração, agropecuária, construção de hidrelétricas, poluição e outras formas de degradação ambiental na bacia do São Francisco. O tamanho e a tendência populacional permanecem desconhecidos, e estudos adicionais sobre sua distribuição, abundância e história natural são considerados necessários para aperfeiçoar o conhecimento sobre a espécie.

Etimologia O nome popular bagre, de acordo com Joan Coromines, deriva do latim pagrus (originário do grego πάργος, párgos), "pargo", através do moçárabe, que originou no árabe da Península Ibérica e do Norte da África "bâgar". Sua primeira ocorrência remonta de 1553. O nome genérico Bunocephalus deriva do grego antigo býnein (βύνειν), "encher" ou "inchar", e kephalḗ (κεφαλή), "cabeça", em referência à cabeça larga e deprimida característica dos representantes do gênero. O epíteto específico minerim alude à forma regional de pronúncia da palavra portuguesa “mineirinho”, diminutivo de “mineiro”, termo usado para designar uma pessoa natural do estado de Minas Gerais. O nome faz referência tanto à região onde a espécie ocorre quanto ao seu pequeno porte em comparação com outras espécies de Bunocephalus. Foi tratado pelos autores como um substantivo em aposição.

Taxonomia Bunocephalus minerim é uma espécie de peixe siluriforme da família dos aspredinídeos e da subfamília dos asprediníneos, grupo conhecido popularmente como bagres-banjo devido à forma peculiar do corpo, com cabeça e tronco fortemente deprimidos, seguidos por um pedúnculo caudal estreito, lembrando o formato de um banjo. A espécie pertence ao gênero Bunocephalus, descrito por Rudolf Kner em 1855 e distribuído por diversos sistemas fluviais tropicais da América do Sul. Os representantes do gênero são peixes bentônicos, geralmente encontrados entre folhiço submerso ou parcialmente enterrados no substrato de remansos e trechos de baixa correnteza em riachos e rios. São considerados onívoros generalistas, alimentando-se de insetos terrestres, larvas de insetos aquáticos, pequenos peixes, folhas e flores. Embora não tenham interesse comercial relevante como alimento, algumas espécies aparecem regularmente no comércio de peixes ornamentais. O gênero Bunocephalus apresenta histórico taxonômico complexo. Algumas espécies anteriormente nele incluídas foram transferidas para o gênero Pseudobunocephalus, e a diagnose inequívoca de Bunocephalus ainda não estava plenamente resolvida quando B. minerim foi descrito. Os autores da descrição original observaram que não havia evidência definitiva de que as espécies remanescentes em Bunocephalus formassem um grupo monofilético, além de ressaltarem possíveis relações próximas com o gênero Amaralia. Também mencionaram a existência de debate sobre a espécie-tipo do gênero, atribuída por diferentes autores a Silurus verrucosus Walbaum, 1792 ou a Bunocephalus hypsiurus Kner, 1855. Nesse contexto, B. minerim foi mantido em Bunocephalus por compartilhar caracteres derivados associados ao grupo formado por Amaralia e Bunocephalus, como a ornamentação desenvolvida da placa nucal média, a margem posterior serrilhada do basipterígio e ossículos da linha lateral com pequenos ganchos, embora este último caráter seja variável na espécie. Bunocephalus minerim foi descrito formalmente em 2015 por Tiago P. Carvalho, Alexandre R. Cardoso, John P. Friel e Roberto E. Reis, juntamente com Bunocephalus hartti, em estudo dedicado a duas novas espécies de bagres-banjo das porções alta e média da bacia do rio São Francisco, no Brasil. Antes da descrição, a espécie havia sido citada na literatura como Bunocephalus sp. N. 2, Bunocephalus sp. B. e Bunocephalus sp., inclusive em estudos faunísticos, ecológicos e de código de barras de DNA da ictiofauna da bacia do São Francisco.

Diagnose O holótipo de Bunocephalus minerim, MCP 47087, mede 37,9 milímetros de comprimento padrão e foi coletado no córrego Guarda-Mor, próximo à cidade de Guarda-Mor, na rodovia BR-364, em Minas Gerais, Brasil, nas coordenadas 17°44’52”S, 47°05’40”W. A coleta ocorreu em 21 de janeiro de 2012, por Roberto E. Reis, Edson H. L. Pereira e Pablo C. Lehmann A. Os parátipos são todos provenientes de Minas Gerais, na bacia do São Francisco, e incluem exemplares coletados nos municípios de Curvelo, Paracatu, Guarda-Mor, Iguatama, Augusto de Lima, Pains e na região de Unaí e Palmeirinha. Os lotes foram obtidos em diferentes afluentes e sub-bacias, incluindo o rio Picão, o córrego Macaúba, o ribeirão São Miguel, o rio Curimataí, o ribeirão Moendas, o rio Formoso e cursos d'água associados às bacias dos rios das Velhas, Formoso, Paraopeba e Paracatu. Parte do material foi diafanizada e corada para estudo osteológico, e alguns exemplares tiveram sequências de COI publicadas em estudo de código de barras genético da ictiofauna do São Francisco. Bunocephalus minerim distingue-se de todos os congêneres, exceto Bunocephalus larai, pela ausência de barra epifisária entre os frontais pareados, estrutura presente ao menos em adultos das demais espécies do gênero. Diferencia-se de B. larai e da maioria dos demais congêneres, exceto Bunocephalus chamaizelus, por possuir nove raios principais na nadadeira caudal, em vez de dez. A ausência da barra epifisária pode indicar relação próxima entre B. minerim e B. larai, embora os autores tenham ressaltado que esse caráter parece ter evoluído independentemente mais de uma vez entre os aspredinídeos, possivelmente por retenção de uma condição juvenil. A espécie também difere de Bunocephalus hartti, descrita no mesmo trabalho, pela presença de serrilhas recurvadas ao longo das margens anterior e posterior do espinho peitoral, pela ausência da barra epifisária, pelo menor número de raios principais na nadadeira caudal e por diferenças osteológicas, como a margem anterior reta do mesetmoide, ausência de projeções anterolaterais nessa estrutura, hemáspines simples em contato com os pterigióforos da nadadeira anal e configuração distinta de elementos do complexo weberiano e da cintura pélvica.

Descrição Bunocephalus minerim é uma espécie de pequeno porte dentro do gênero, com comprimento padrão máximo observado de 48,8 milímetros. O corpo e a cabeça são deprimidos, com perfil lateral quase reto e ascendente da extremidade do supraoccipital até a origem da nadadeira dorsal. O dorso apresenta saliências ósseas na porção posterior da lâmina do complexo weberiano e na placa nucal média. O perfil posterodorsal do corpo é reto e descendente da origem da nadadeira dorsal até a base da nadadeira caudal. O perfil ventral é convexo da boca até a inserção da nadadeira pélvica, côncavo desse ponto até a origem da nadadeira anal, e depois reto e ascendente até a base da caudal. O pedúnculo caudal é delgado, arredondado em seção transversal e mais baixo aproximadamente no ponto médio entre o fim da nadadeira anal e a origem da nadadeira caudal. A ornamentação craniana é pouco desenvolvida, sem protuberâncias ósseas conspícuas em adultos. Os olhos são pequenos, posicionados dorsolateralmente e cobertos por pele densa e pálida. A narina anterior situa-se terminalmente na ponta do focinho, associada a um tubo carnoso que se projeta além do lábio superior, enquanto a narina posterior não possui aba e se abre anteromedialmente próximo ao olho. A boca é subterminal, com lábio superior mais proeminente que o inferior. Todos os barbilhões são simples e não ramificados; o barbilhão maxilar ultrapassa ligeiramente a inserção do espinho da nadadeira peitoral, e o barbilhão mentoniano posterolateral é cerca de duas vezes mais longo que o anteromedial. A abertura opercular é reduzida a uma pequena fenda valvular situada imediatamente à frente e medialmente à inserção do espinho peitoral. O tegumento é recoberto por pequenos tubérculos unculíferos, maiores na porção posterior do corpo, onde formam séries longitudinais alinhadas. No pedúnculo caudal, especialmente em juvenis, há fileiras bem definidas de tubérculos, incluindo uma série mediodorsal e três séries laterais. Fêmeas de alguns lotes foram observadas com ovos aderidos às superfícies lateral e ventral do corpo e às nadadeiras peitorais, pélvicas e anal. Machos adultos apresentam testículos digitiformes. A espécie apresenta nadadeira dorsal com quatro ou cinco raios, geralmente cinco, sem espínula; o primeiro raio é não ramificado, seguido por três ou quatro raios ramificados. Cerca de metade do comprimento do último raio dorsal permanece aderido ao dorso por membrana. A nadadeira peitoral possui um espinho rígido e cinco raios moles ramificados, com o último raio variavelmente ramificado. O espinho peitoral é curvo e apresenta serrilhas recurvadas ao longo de aproximadamente três quartos das margens anterior e posterior. As nadadeiras pélvicas têm seis raios moles, com o segundo e o terceiro mais longos, alcançando a origem da nadadeira anal. A nadadeira anal possui de sete a nove raios, geralmente nove, dos quais os três a cinco primeiros são não ramificados. A nadadeira caudal apresenta nove raios principais, cinco associados ao lobo superior e quatro ao lobo inferior, com margem posterior convexa. A nadadeira adiposa está ausente. A coloração em álcool é variável, com dois morfos principais, um escuro e outro claro. No morfo escuro, a porção dorsal da cabeça e do corpo é marrom-escura, com três selas escuras pouco definidas e variavelmente presentes: a primeira sob a nadadeira dorsal, a segunda na vertical da região média da nadadeira anal e a terceira no fim do pedúnculo caudal. No morfo claro, o padrão é semelhante, mas a superfície dorsal é marrom-clara, contrastando com selas marrom-escuras mais bem definidas; a lateral do corpo apresenta manchas escuras irregulares. A superfície ventral é geralmente marrom-clara, com pigmentação escura concentrada nos tubérculos unculíferos. As nadadeiras peitorais, pélvicas e anal possuem pigmentação escura dispersa, enquanto as nadadeiras dorsal e caudal são predominantemente escuras, com porções distais claras. A caudal pode apresentar uma mancha clara na região proximal.

Distribuição e habitat Bunocephalus minerim é dulcícola, demersal e ocorre em ambiente tropical. É endêmica do Brasil e conhecida de vários tributários das porções alta e média da bacia do São Francisco, em Minas Gerais. Seus registros incluem as bacias dos rios das Velhas, Formoso, Paraopeba e Paracatu, além de cursos d'água como o córrego Guarda-Mor, o córrego Macaúba, o rio Picão, o ribeirão São Miguel, o rio Curimataí, o ribeirão Moendas e pequenos riachos da região de Unaí e Palmeirinha. A espécie ocorre exclusivamente no bioma Cerrado e está associada às sub-bacias do Alto e Médio São Francisco. Como outros representantes de Bunocephalus, a espécie é bentônica e associada a ambientes de fundo em riachos e rios. Espécies do gênero costumam ser encontradas entre folhiço submerso ou enterradas no substrato de remansos e trechos de correnteza lenta. A ocorrência em diversos tributários do São Francisco indica associação com sistemas fluviais interiores de Minas Gerais, dentro de uma bacia caracterizada por elevada diversidade e endemismo ictiofaunístico.

Ecologia Dados ecológicos específicos sobre Bunocephalus minerim ainda são limitados, mas a espécie foi citada em estudos ecológicos antes de sua descrição formal. Por pertencer a Bunocephalus, é interpretada como um peixe de hábitos bentônicos, que vive junto ao fundo e pode permanecer oculto entre detritos vegetais ou enterrado no substrato. Espécies do gênero são consideradas onívoras generalistas, consumindo insetos terrestres, larvas de insetos aquáticos, pequenos peixes, folhas e flores. A espécie foi registrada em habitats arenosos recobertos por folhiço na bacia do rio São Francisco, ambiente que favorece sua camuflagem e permanência junto ao substrato. Um aspecto notável da biologia da espécie é a presença de ovos diretamente aderidos à superfície corporal de algumas fêmeas. Esse tipo de cuidado parental, no qual os embriões em desenvolvimento permanecem fisicamente presos ao corpo, já era conhecido em alguns aspredinídeos, como Pterobunocephalus, Platystacus, Aspredo e Aspredinichthys. Em B. minerim, os ovos foram observados aderidos diretamente ao corpo, de modo semelhante ao registrado em Pterobunocephalus. Segundo os autores da descrição, esse comportamento é raro em Bunocephalus, havendo poucos registros comparáveis em espécimes atribuídos a Bunocephalus cf. coracoideus da Guiana Francesa. Em B. minerim, os ovos parecem aderir mais profundamente, com depressões visíveis na superfície da pele. O FishBase registra respiração aérea facultativa para o gênero Bunocephalus, embora esse dado não tenha sido documentado especificamente para B. minerim.

Conservação Na descrição original, Bunocephalus minerim foi avaliada como pouco preocupante (LC) segundo as categorias e critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Posteriormente, a Lista Vermelha da UICN manteve a espécie como pouco preocupante (LC) em avaliação global realizada em 2020 e publicada em 2021. A espécie não foi avaliada pela CITES nem pela CMS, e é considerada inofensiva para humanos. A espécie possui uma extensão de ocorrência estimada em aproximadamente 75 mil quilômetros quadrados, abrangendo diversos tributários das porções alta e média da bacia do São Francisco. Embora a qualidade do habitat apresente declínio contínuo, associado principalmente à mineração, à produção agropecuária e à poluição de origem antrópica, não existem evidências de fragmentação severa, flutuações extremas na distribuição ou no tamanho populacional, nem de declínios populacionais significativos em toda a sua área de ocorrência. O número de localidades definidas por ameaças não pôde ser estimado com precisão, e tanto o tamanho populacional quanto sua tendência permanecem desconhecidos. Em um levantamento realizado na bacia do São Francisco, apenas seis exemplares da espécie foram registrados entre 3 520 peixes amostrados, sugerindo baixa abundância local, embora não existam estimativas populacionais confiáveis. As principais ameaças identificadas incluem a degradação dos habitats aquáticos decorrente de atividades minerárias, expansão agropecuária e poluição associada à ocupação humana, especialmente na região metropolitana de Belo Horizonte. O SALVE também reconhece a pecuária, a implantação de hidrelétricas, a poluição doméstica e urbana e a poluição industrial como fatores que contribuem para a deterioração da qualidade ambiental em partes de sua área de ocorrência. Pesquisadores envolvidos na descoberta da espécie destacaram que os registros conhecidos estão associados a trechos relativamente conservados da bacia do São Francisco, ressaltando a importância da manutenção da vegetação ripária e da integridade dos ambientes aquáticos. Segundo esses autores, o assoreamento dos cursos d'água pode representar um fator de impacto potencial ao alterar os substratos arenosos utilizados pela espécie. A UICN também aponta que a construção de barragens hidrelétricas modificou a hidrologia natural da bacia do São Francisco e que as mudanças climáticas poderão intensificar os impactos existentes ao favorecer condições mais quentes e secas, associadas a padrões pluviométricos menos previsíveis e eventos climáticos extremos mais frequentes. Não existem medidas de conservação especificamente direcionadas à espécie. Sua distribuição provavelmente inclui algumas unidades de conservação situadas na região de Belo Horizonte, embora registros específicos nessas áreas não tenham sido detalhados. A espécie pode ocasionalmente integrar o comércio de peixes ornamentais, mas não existem dados sobre o volume de captura. Tanto a UICN quanto o SALVE destacam a necessidade de pesquisas adicionais para esclarecer aspectos de sua distribuição, abundância, tendências populacionais e biologia, informações ainda insuficientemente conhecidas para a espécie.

Referências

Ligações externas Documentos sobre Bunocephalus minerim na Biodiversity Heritage Library Observações de Bunocephalus minerim no iNaturalist