A Epístola aos Hebreus é um dos livros do Novo Testamento que teve sua canonicidade contestada. Tradicionalmente, acreditou-se que a epístola tivesse sido escrita pelo apóstolo Paulo. No entanto, isso tem sido questionado desde o século III, e o consenso entre a maioria dos estudiosos modernos é que o autor é desconhecido.

Visões históricas A Epístola aos Hebreus foi incluída na coleção dos escritos paulinos desde uma data muito antiga. Por exemplo, o códice P 46 do final do século II ou início do século III, um volume das epístolas gerais de Paulo, inclui Hebreus imediatamente após Romanos. Embora a suposição de autoria paulina tenha permitido prontamente sua aceitação nas Igrejas Orientais, as dúvidas quanto à sua autoria persistiram no Ocidente. Eusébio de Cesareia não lista a Epístola aos Hebreus entre os livros da antilegomena ou livros disputados (embora tenha incluído o Evangelho dos Hebreus, sem relacão com a epístola). Ele registra, no entanto, que "alguns rejeitaram a Epístola aos Hebreus, dizendo que ela é disputada pela igreja de Roma, com base no fato de não ter sido escrita por Paulo". Em resposta, ele endossa a visão de Clemente de Alexandria, de que a epístola foi escrita por Paulo em hebraico (sem assinatura por modéstia) e "traduzida cuidadosamente" para o grego por Lucas, algo demonstrado por sua semelhança estilística com o livro de Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas. Dúvidas quanto à autoria paulina surgiram por volta do final do século II, predominantemente no Ocidente. Tertuliano atribuiu a epístola a Barnabé. Tanto Caio, o presbítero quanto Hipólito de Roma excluíram Hebreus das obras de Paulo, este último atribuindo-a a Clemente de Roma. Orígenes observou que outros haviam reivindicado Clemente ou Lucas como autores, mas ele aceitou provisoriamente a origem paulina do pensamento no texto e a explicação de Clemente de Alexandria, dizendo que "os pensamentos são os do apóstolo, mas a dicção e a fraseologia são as de alguém que se lembrava dos ensinamentos apostólicos e anotava em seu tempo livre o que havia sido dito por seu mestre", conforme citado por Eusébio. Jerônimo de Estridão, ciente dessas dúvidas persistentes, incluiu a epístola em sua Vulgata, mas a moveu para o final dos escritos de Paulo. Agostinho de Hipona afirmou a autoria de Paulo e defendeu vigorosamente a epístola. A essa altura, sua aceitação no cânon do Novo Testamento já estava bem estabelecida.

Visões modernas Em geral, as evidências contra a autoria paulina são consideradas sólidas demais para serem contestadas academicamente. Donald Guthrie, em sua Introdução ao Novo Testamento (1976), comentou que "a maioria dos escritores modernos encontra mais dificuldade em imaginar como esta Epístola foi atribuída a Paulo do que em refutar a teoria". Harold W. Attridge afirma que a epístola "certamente não é uma obra do apóstolo". Daniel B. Wallace, que defende a autoria tradicional das outras epístolas, declara que "os argumentos contra a autoria paulina, no entanto, são conclusivos". Como resultado, embora algumas pessoas hoje acreditem que Paulo escreveu Hebreus, como o teólogo R.C. Sproul, os estudiosos contemporâneos geralmente rejeitam a autoria paulina. Como Richard Heard observa, em sua Introdução ao Novo Testamento, “os críticos modernos confirmaram que a epístola não pode ser atribuída a Paulo e, em sua maioria, concordaram com o julgamento de Orígenes : 'Mas quanto a quem escreveu a epístola, só Deus sabe a verdade.'” Attridge argumenta que as semelhanças com as epístolas paulinas presentes na epístola são simplesmente um produto do uso compartilhado de conceitos e linguagem tradicionais. Outros, no entanto, sugeriram que elas não são acidentais e que a obra é uma falsificação deliberada que tenta se passar por uma obra de Paulo.

Evidências internas

Anonimato interno O texto, da forma em que foi transmitido até aos nossos dias, é internamente anónimo, embora alguns títulos mais antigos o atribuam ao Apóstolo Paulo.

Identificação como cristão de segunda geração Em Hebreus 2:3, o autor fala de uma “tão grande salvação” que “começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram”. Geralmente, isso é interpretado como uma indicação de que o autor era um cristão de segunda geração.

Diferenças estilísticas em relação a Paulo O estilo é notavelmente diferente do resto das epístolas de Paulo, uma característica observada por Clemente de Alexandria (c. 210), que argumentou, segundo Eusébio, que a carta original tinha um público hebreu e, portanto, foi escrita em hebraico e posteriormente traduzida para o grego, "alguns dizem [pelo] evangelista Lucas, outros... [por] Clemente [de Roma]... A segunda sugestão é mais convincente, tendo em vista a semelhança de fraseologia demonstrada ao longo da Epístola de Clemente e da Epístola aos Hebreus, e na ausência de qualquer grande diferença entre as duas obras no pensamento subjacente". Ele concluiu que "como resultado desta tradução, a mesma complexidade de estilo é encontrada nesta Epístola e nos Atos: mas que as [palavras] 'Paulo, apóstolo' não foram naturalmente prefixadas. Pois, diz ele, 'ao escrever aos hebreus que tinham preconceito contra ele e suspeitavam dele, ele muito sabiamente não os repeliu de início colocando seu nome'". Essa diferença estilística levou Martinho Lutero e as igrejas luteranas a se referirem a Hebreus como parte da antilegomena, que são os livros cuja autenticidade e utilidade foram questionadas. Como resultado, ele é colocado com Tiago, Judas e Apocalipse, no final do cânone de Lutero.

Semelhanças estilísticas com Paulo Alguns teólogos e grupos, como as Testemunhas de Jeová, que continuam a sustentar a autoria paulina, repetem a opinião de Eusébio de que Paulo omitiu seu nome porque ele, o Apóstolo dos Gentios, estava escrevendo aos judeus. Eles conjecturam que os judeus provavelmente teriam rejeitado a carta se soubessem que Paulo era a fonte. Eles teorizam que as diferenças estilísticas em relação às outras cartas de Paulo são atribuídas ao fato de ele ter escrito em hebraico para os hebreus, e que a carta foi traduzida para o grego por Lucas. Paulo é também o único autor bíblico, ou autor judeu do mesmo período, a usar a analogia do "leite espiritual" em contraste negativo com o "alimento sólido" (Hebreus 5:12ss; cf. 1 Coríntios 3:2ss). Nenhum outro autor trata o leite espiritual de forma negativa, visto que as testemunhas do Antigo Testamento sempre se referem ao leite num sentido positivo de nutrição, enquanto Pedro emprega o termo "leite espiritual" como algo que os cristãos devem "desejar ardentemente" em 1 Pedro 2:2. A analogia da maturidade cristã como a transição do leite para o alimento sólido é exclusiva dos escritos de Paulo. No capítulo 13 de Hebreus, Timóteo é mencionado como um companheiro. Timóteo era o companheiro missionário de Paulo, da mesma forma que Jesus enviava discípulos em pares. Além disso, o autor afirma que escreveu a carta da "Itália", o que também condiz com Paulo na época. A diferença de estilo é explicada como simplesmente uma adaptação a um público mais específico, os judeus cristãos que estavam sendo perseguidos e pressionados a retornar ao judaísmo tradicional. A epístola contém a saudação final clássica de Paulo: "A graça esteja convosco...", como ele afirmou explicitamente em 2 Tessalonicenses 3:17–18 e como está implícito em 1 Coríntios 16:21–24 e Colossenses 4:18. Esta saudação final está incluída no final de cada uma das cartas de Paulo:

Embora o estilo de escrita seja diferente do estilo de Paulo em vários aspectos, algumas semelhanças na redação com algumas das epístolas paulinas foram observadas. Na antiguidade, alguns começaram a atribuí-la a Paulo numa tentativa de fornecer à obra anônima uma linhagem apostólica explícita.

Outros possíveis autores

Priscila Mais recentemente, alguns estudiosos defenderam a hipótese de Priscila ter sido a autora da Epístola aos Hebreus. Essa sugestão partiu de Adolf von Harnack em 1900. Harnack afirmou que a Epístola foi "escrita para Roma — não para a igreja, mas para o círculo íntimo"; que a tradição mais antiga "apagou" o nome do autor; que "devemos procurar uma pessoa intimamente associada a Paulo e Timóteo como autora" e que Priscila correspondia a essa descrição.

Ruth Hoppin fornece um apoio considerável à sua convicção de que Priscila escreveu a Epístola aos Hebreus. Ela sustenta que Priscila "preenche todos os requisitos, corresponde a todas as pistas e surge em todas as linhas de investigação". Ela sugere que o particípio masculino pode ter sido alterado por um escriba, ou que a autora estava deliberadamente usando um particípio neutro "como uma espécie de abstração".

Barnabé Tertuliano (Sobre a Modéstia, 20) sugeriu Barnabé como autor: "Pois existe também uma Epístola aos Hebreus sob o nome de Barnabé — um homem suficientemente reconhecido por Deus como alguém a quem Paulo colocou ao seu lado...". Considerações internas sugerem que o autor era do sexo masculino, era conhecido de Timóteo e residia na Itália. Barnabé, a quem algumas obras não canônicas foram atribuídas (como a Epístola de Barnabé), foi próximo de Paulo em seu ministério.

Lucas, Clemente, Apolo Outros possíveis autores foram sugeridos já no século III d.C. Orígenes de Alexandria (c. 240) sugeriu Lucas, o Evangelista ou Clemente de Roma. Martinho Lutero propôs Apolo, descrito como um alexandrino e "um homem instruído no caminho do Senhor", popular em Corinto, e hábil em usar as escrituras e argumentar em favor do cristianismo enquanto "convencia publicamente os judeus".

Referências